Proteger a vida
Por Beto Grill*
Quarta-Feira Santa, abril de 1966. Chego de São Lourenço, onde, com 11 anos, passei a morar com meus tios para cursar o 1º ginasial, enfrentando o desafio de deixar a pequena escola de uma sala só, no interior, para o grande ginásio da cidade. Muitos duvidaram de que eu tivesse sucesso. Meu pai, não. Estava convicto de que eu venceria o desafio.
Retornando ao lar para o feriado de Páscoa, encontrei-me com ele durante o jantar. Nisso, chegava o aviso de que o nosso caminhão furara o pneu retornando da Capital. Imediatamente, decidiu acudir o motorista. Pedi para ir junto e ele não deixou, pois voltaria tarde. Trinta minutos depois, chegou a notícia de um grave acidente na BR-116. Meu pai, aos 31 anos, estava morto, com seus dois acompanhantes, engavetado atrás de um caminhão. Do porta-malas aberto e distorcido pelo choque, esparramavam-se pelo asfalto inúmeros coelhinhos e ovos de chocolate.
Ele jamais veria meu boletim do primeiro mês, com notas entre as melhores da turma. Muito menos teria a oportunidade de ver o sonho de ter um filho médico se tornar realidade. Só eu, a minha irmã e a minha mãe podemos avaliar o quanto a perda do pai transformou as nossas vidas. Quanta falta fez. Quanta dor. Dificilmente identificamos uma família na qual não tenha ocorrido tragédia semelhante. Isto tem que parar.
O Brasil mudou para melhor. São necessários mais caminhões para transportar a produção, mais coletivos para conduzir as pessoas. Muitos compraram sua motocicleta ou o seu carro. Quem tinha um agora tem dois. Porém, estradas não acompanham o crescimento da frota.
Vamos festejar este bom momento. Olhar para dentro de nós e lembrar onde e como estávamos há poucos anos. A pé? Veja o condutor ao lado: que bom que ele agora tem o seu carrinho ou a sua moto. Observe o profissional que passa com o caminhão carregando as nossas riquezas ou o ônibus repleto de trabalhadores ou estudantes. Portanto, tenha paciência, sorria, agradeça por estar melhor, por ver que o outro também tem o direito e precisa trafegar. Use o seu veículo para trabalhar, para passear, para o seu conforto e comodidade. Não faça dele uma arma. Não mate, não morra. Pare na faixa de segurança, respeite o ciclista e o pedestre. Mude o comportamento, seja feliz, mantenha e proteja a vida.
Diante de tantas tragédias, é decisiva a mobilização da sociedade e dos governos em favor da redução de acidentes, com cuidados de fiscalização, educação e aperfeiçoamento da legislação. Para combater números que equivalem a uma guerra, é preciso que as autoridades estabeleçam um plano de redução de mortes e lesões como política de governo, constituindo um gabinete com poderes de mobilizar a todos os órgãos estatais e articular as entidades da sociedade civil. É por isso que instituímos o Comitê Estadual de Mobilização pela Segurança no Trânsito. Vamos a uma nova fase: contabilizar as vidas salvas. Perseguir o objetivo da Década de Ação pela Segurança no Trânsito, proposto pela ONU, de reduzir em, no mínimo, 50% as mortes no trânsito.
*Vice-governador do Estado do Rio Grande do Sul
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