Nov 29

Humanidades Étnicas

Humanidades Étnicas: “Somos iguais, pois radicalmente diferentes”.

“Permanecer numa espécie de ingênua concepção sobre as coisas e as gentes ou permitir-se assumir a estranheza frente ao diferente, ao diverso que, até então, sempre se pensou ser ou dever ser igual? Permanecer no Lugar Comum, a partir de uma visão linear, monótona, uniforme do real ou permitir-se o entendimento dinâmico, multifacetado, capaz de surpreender-se com o naturalmente diferente neste mesmo real? A igualdade pode ser confundida com uniformidade? Há liberdade na uniformidade? Há espaço ontológico de ser quando, justamente, não deixamos-ser o que essencialmente o outro é?” (Introdução ao Estatuto da Igualdade Racial – Cartilha PSB 2011)

 

1.1 - Contexto e problematização

A temática das Humanidades Étnicas, que tenho me debruçado, enquanto pesquisa nos últimos tempos, será concebida, também neste artigo, como precedente e gênese necessária para qualquer historização sobre o Movimento da Negritude em nível local, regional, universal. Por exemplo: o Movimento Negro, historicamente existente no RS, se consolidou a partir de UMA das visões  negras de mundo possíveis sobre o Humano. Optar refletir sobre esta (e não aquela) visão é dar-se conta de que não há unanimidade e unicidade quanto às visões negras de mundo que se possam ter sobre o Humano e, ainda, constatar que,  consciente ou não, expressar  visão unilateral sobre a Humanidade Negra acaba mais  limitando o próprio conceito de Negritude a partir de uma matriz de pensamento padronizada e preconcebida do que ampliando-o ou democrati-     zando-o no que tange a sua compreensão.

Permita-se pensar: qual a visão negra de mundo que foi produzida pelos negros no Rio Grande do Sul? Que condições a geraram? Seria possível a  “ex-escravos”, naturalizados à força neste estado, manter, gerir ou resgatar uma concepção de mundo originalmente negra? Seria possível a autenticidade ancestral em seus pensamentos e atos? Seria necessária esta autenticidade a eles? Como se constituiria, em nossos dias, e como se constituiu, ao longo da História de nosso estado, a Humanidade provinda da Negritude em nível conceitual e existencial? O que significa ser Ser Humano Negro? A partir de qual concepção se poderia delinear este conceito ao longo da História Rio Grandense e em nossos dias? Seria possível, hoje, haver cultura verdadeiramente negra, seria possível vivenciá-la? O que definiria algo como essencialmente Pensamento Negro em nossos dias? Quanto da influência da cultura não negra e, por vezes, opressora e negadora da matriz original negra, se radicou/radica subliminarmente no pensamento negro hodierno? Seria possível, no Brasil ou no Rio Grande do Sul, uma cultura essencialmente negra ainda hoje? Seria necessário que houvesse tal cultura? Seria possível, em nossos dias, em nosso país um purismo étnico? Seria necessário?

Estas são algumas das inquietantes interrogações que, na minha compreensão, a História foi constituindo, em forma de provocação, ao sentimento e à razão impelindo-os a procurar respostas estruturantes ou, no mínimo, refletir, não apressadamente, sobre.

Sem dúvida, tais questionamentos elucidam a complexidade posta sob a questão mesma da essência da Negritude que merecerá oportunamente aprofundamento meticuloso. Este artigo, no entanto, centrará sua análise a partir da convicção  de que:) a alteração  da visão de mundo (cosmovisão) sobre o que chamamos real, pluralizando-a e instrumentalizando-a, é, sem dúvida, uma postura metodológica, que alarga a  concepção sobre este mesmo real e que  propicia  aos seres humanos poder ser, enquanto indivíduos e etnias, a partir de si mesmos e da materialização autêntica e intransferível de sua existência no mundo, excluindo-se, definitivamente, modelos padronizados e preconcebidos   de ser, fazer, conviver

(já que a multiplicidade é característica do próprio real); 

b) que há outras Humanidades e outras formas legítimas de ser Ser Humano e/ou de o humano ser;

c) que há  outros paradigmas ontológicos de humanidade.

A visão sobre a realidade que se instaurou, em uma boa parte do mundo chamado “capitalista”,  potencializou a discriminação, o racismo, a intolerância, a competitividade, o consumismo exacerbado, a hierarquização étnica; ressaltou a unilateralidade na  análise e na constituição dos fatos e das coisas do mundo.     Sem dúvida, envoltos neste contexto, a maioria de nós temos dificuldade de pensarmos e agirmos para além dos modelos estereotipados de o humano ser, em todos os níveis, oriundos dessa cultura. 

Na contramão desta lógica, este artigo quer fazer pensar sobre o diverso, sobre a multiplicidade de visões e sobre a constituição, tão humana quanto, de todas as visões, mesmo que forjadas sobre matrizes absolutamente diferentes e, muitas vezes, incompatíveis. Não há quadro de comparação entre as etnias diferentes a não ser por um exercício didático de ver ou tentar ver, naquilo que se mostra e que eu consigo abstrair, o todo outro; não há tábula, já escrita, onde devamos, ao lê-la,  nos inspirar e, de certa forma, reproduzi-la. Não há ou não deveria haver normatização, padronização, generalização de entendimento quando se trata, ontologicamente, de etnia, “pois cada um é cada qual”. Somos étnica e essencialmente distintos. Entender a diferença - e não a igualdade, como constitutivo radical da relação  étnica entre os seres humanos é pressuposto “sine qua non” para se entender a legítima individualidade no ser de cada etnia.









1.2 - Há  outras Humanidades e outras formas legítimas de  ser  Humano e/ou de o Humano Ser

A questão da negritude, numa abordagem que: possa fundamentar a possibilidade de se entender o real a partir de uma cosmovisão advinda das Humanidades Étnicas;  da constatação de que a igualdade entre os seres, inclusive os humanos,  se fundamenta na sapiência e no convencimento sobre sua  radical e estruturante diferença que se evidencia no convencimento, ao menos metodológico, de que Humano, Humanidade são ou podem ser conceitos equívocos, múltiplos e até absurdos (enquanto não subservientes a uma  mesma e determinada racionalidade) se coloca como  central para o entendimento da pluralidade das humanidades. Os  conceitos ligados à humanidade não são ou não deveriam ser  unívocos ou consensuais ou uniformizantes ou padronizáveis. Todos e todas, etnicamente diferentes, possuem a mesma dignidade justamente por serem absoluta, essencial e constitutivamente diferentes.

Esta diferença não se denota apenas na evidente não similaridade ou simultaneidade  em nível de costumes, jeitos de ser, vontades pessoais ou culturais expressas na História. A diferença não é de pessoa para pessoa. A diferença estruturante da qual escrevo é de etnia para etnia.

As etnias simplesmente são. Elas não evidenciam a sua essência ou, por outra,  esta não se torna cognoscível, exclusivamente, a partir da correlação de umas com as outras. Elas são independentes no ser umas das outras. Este “em si”, imbricado em cada etnia, deveria impedir que, a utilização de paradigmas lineares de Verdade/Moralidade/Conhecimento/Cosmovisão, reféns e subservientes a uma cultura hegemônica específica, fossem utilizados para o entendimento das  etnias existentes. Contrário a isso, infelizmente, pode-se ver manifestado, de maneira pródiga,  ao longo de  toda a história do povo negro e de outros povos que, por um motivo ou outro, foram subjugados sócio-economicamente.

O problema metodológico que se coloca, nesta perspectiva, é que “aquele que observa e quer conhecer” alguma etnia terá, à sua frente, o enfrentamento com a necessária desnudação étnica em dois níveis:

1º  nível – terá que superar ideias preconcebidas sobre si mesmo que o fazem ser, pensar e agir desta e não daquela forma, pois tais formatações intelectuais e vivenciais, que lhe foram passadas e são um dado de sua hodierna existência, muito provavelmente, já se constituíram nele como que viciadas ou, no mínimo, condicionadas, no nível da cultura, justamente por formas de ser, pensar e agir provindas da educação, da classe social, do gênero, do preconceito racial e de outros condicionantes do humano. Tais condicionamentos dificultarão e, quem sabe, impedirão que ele  possa conceber o outro ente étnico na sua verdade existencial. Neste nível de intelecção, “aquele que observa” a outra etnia teria que, quanto mais possível, libertar-se dos preconceitos sub e super dimensionados que tem sobre si e sobre a capacidade de sua intelecção.

No  2º nível, à semelhança do 1º, “aquele que observa” deverá buscar a superação das ideias inculcadas sobre o “todo outro” e da sua capacidade de intelecção sobre o que é diferente dele. Estes dois níveis são similares e ocorrem concomitantemente no ser.

Seria possível, apesar disso, entender o etnicamente diferente na singularidade que ele é? Seria possível a mim, enquanto sujeito e como também um ente étnico, “des-velar-me” a ponto de ser compreendido por mim mesmo e por outros? E, ainda, seria necessário este entendimento?

Quem sabe a atitude mais honesta frente a diversidade étnica não seja o silêncio?

Quem sabe a atitude mais adequada frente a minha própria complexidade étnica não seja o silêncio?

Tal atitude pode, sob determinado viés, ser absolutamente científica, pois deixar-ser o Real, não o limita, nem o enquadra...apenas...deixa-o ser...mostrar-se.

O silêncio  não é passivo ou indolente. Ele pode ser filosófico, pois admite e presume a admiração ao diverso, presume a surpresa, ver o outro como ele se mostra. E, desse encantamento, pode advir a intelecção que ouve, auscuta antes de preconceituadamente definir-se sobre.
Quanto às outras humanidades? Cabe-nos o silêncio.

Pertencemos a mesma raça, pois humanos todos somos. Toda a  conceituação que pode advir dessa concepção de ser humano, fundamentará o princípio de igualdade, justamente por sermos  essencialmente diferentes e pertencentes às várias Humanidades, ou seja, várias formas autênticas de sermos seres humanos.

Somos feitos da “mesma coisa”; fragilizados pelas mesmas coisas; frutos de nossas escolhas, experiências e decisões da mesma forma. Fadados à morte e ao desaparecimento enquanto indivíduo da mesma forma. Iguais, porém com exteriorização étnica de nossas humanidades visceralmente diferentes.

É a diferença étnica essencial que fundamenta a existência e a necessidade de igualdades sociais, econômicas,etc.

2 – Relevância da etnia enquanto constitutiva do Ser

O acento central desta reflexão (deste artigo) quer ser a constituição e relevância da etnia, que se denota para além da questão de raça, na construção ontológica de cada um dos seres humanos, cada uma das espécies.

A etnia confere a cada humano um caráter ontológico que o individualiza enquanto grupo sócio/econômico; sensório/existencial historicamente situado.

O conceito de Humanidades Étnicas supõe que há formas diversas, todas legítimas, de sermos seres humanos. No Ocidente, a Tradição judaico/cristã, como já referido, aliada a europeização racionalista da visão de mundo no que tange à formação de uma lógica que priorizasse o uno e não o múltiplo; a concepção linear de História; o gosto pelo consumismo; a instauração e naturalização da competição selvagem entre os tidos como civilizados; a necessidade da supervalorização do EU em detrimento do todo outro podem ter conduzido o humano a, praticamente, não conseguir analisar a realidade de forma plural – como de fato ela, segundo minha convicção, se apresenta.

Definiu-se, garantiu-se a manutenção da extratificação cultural e social a partir da crença na   definição UNA  de ser humano.

Aristóteles definiu-nos e definiu-se como “animal racional”; outras visões filosóficas percebem o humano como ser que pensa, ser que faz, ser que sabe que sabe, ser que sente, ser feito para morte, ser aí, ser em comunhão.

Neste sentido, se poderia perguntar: de que humano estamos tratando? Ao se falar ou escrever sobre o ser do humano, por vezes, parece que se está supondo que há um pressuposto, um parâmetro, um paradigma universal sobre este ser...e não há!

Ser humano é um conceito difuso, quem sabe até mais equívoco do que unívoco. Isto ocorre pois a humanidade se dá. Ela é um dado do real. E o real prescinde da padronização racional sobre a etnia. A etnia se dá no mundo de formas variadas orientadas por lógicas internas e independentes umas das outras, por vezes,  paradoxais até!. Ela , na verdade, se dá, se materializa nas Humanidades, formas de ser, intrinsecamente carregadas, constituídas de um conteúdo étnico específico e misterioso.

A necessidade de padronizar,  proveniente e característica de uma ou outra das culturas que se esteriorizaram em nosso planeta, parece que só  permite a uns e outros ver e entender os paradigmas que  foram como que impressos em seu horizonte de análise; mas há inúmeros outros paradigmas existentes. Na verdade, há tantos quantos forem as etnias humanamente concretizadas.

A etnia dá ao ser humano uma diferença de ser e no ser. O Humano que habita numa e noutra etnia é diferente. Então não há uma definição conclusa de ser humano. “O que é o ser humano?”  Esta definição vai depender de que lugar étnico estamos analisando; que elementos, que pressupostos, que logicidade étnica o interlocutor se utiliza para conceituar.
3 - Guetização da Negritude
Ainda seria interessante de se refletir, neste pequeno ensaio, sobre uma das consequências práticas que, para dentro do próprio Movimento Negro, o vício de vislumbrar o mundo  uniformemente causou.  Ao denominar vício quero frisar que a visão unilateralmente esteriotipada sobre a Humanidade é característica de muitas experiências culturais, inclusive a do povo negro em muitos momentos.

Chamarei a este movimento viciante de  Guetização da Negritude.

Guetização é quando o negro assume o espaço – concedido - para  falar sobre  negro e suas questões. Este ritual  - permitido -  faz com que se reforce ou, no mínimo, se apreenda a ideia de que é o negro, quase que exclusivamente, que deve falar sobre negritude. Ele ocupa as tribunas, no tempo que lhe é devido – previamente estipulado – fala somente sobre as suas coisas e, depois, volta para o seu lugar. Mas, o que são as suas coisas? A estrutura político-social viciou-se dessa Guetização e o Movimento Negro, em muitos momentos, reproduz esta estrutura.

Coisas de negro não são também  as coisas da humanidade ou das Humanidades?  Versar sobre todo o tempo e todo o espaço não deveria ser coisa de negro também?

Guetização é o negro ocupar o  espaço, a partir de normas preconcebidas,  por um determinado tempo. A  Guetização, assim como o “Branqueamento”, é eficaz e aprisionou a cabeça de negros e não negros no decorrer de nossa História.

Pensemos: se o negro  ocupa o espaço por um tempo e, depois, volta “ao seu lugar”...o espaço ocupado, então, é de outrem – que lhe cedeu, por bondade ou por pressão...tanto faz! Mesmo com a tomada de espaços pelo negro por justa pressão, se suporá e se ratificará, com a sua subsequente desocupação,  que o espaço/tempo tinha um  dono – e que não era um espaço negro. O espaço ocupado pelo negro tem se dado nas intermitências, nas lacunas.

O que se está querendo revelar aqui, é que o espaço do negro é o espaço do humano e, por conseguinte, todo o espaço lhe pertence. E, por decorrência, todo o tempo/espaço pertencem às etnias em suas formas diferentes de exteriorizar o ser do humano. Não há parâmetro universal. Há diferentes, essencialmente diferentes Humanidades.

A atitude de tomar o espaço do dono, tem sentido numa relação escravocrata, mas não numa relação democrático-partidária por exemplo ou supondo-se uma sociedade que busca a igualdade entre os diferentes. Supor que há espaço específico, predefinido para o negro é o que chamo de Guetização.

A Guetização se percebe quando denotamos que só o Movimento Negro fala sobre o negro; quando o Movimento Negro só sabe falar de negro. Felizes dos masculinos/brancos “normais” que falam daquilo que “não são”: índios, deficientes, ciganos, mulheres...feliz do negro que fala sobre as coisas do humano...sobre economia, sobre mulheres, juventudes, cultura, sobre ecologia, sobre globalização...Virá o dia!

4 - Conclusão

O negro tem que ser ouvido, ter vez e influência, pois a negritude faz parte de uma das humanidades que o ser humano é. A mulher tem que ser ouvida, pois a feminilidade faz parte de uma das humanidades que compõe o que o humano é. O cigano tem que ser ouvido, pois a sua lógica pertence a uma das humanidades que  o humano é.

Compartimentados fomos tornados a ponto de não vermos o outro, também humano, em mim. Vemos a realidade pelo prisma racial, étnico, de gênero, de classe, de língua por uma contingência a partir do tipo, do jeito de ser de nossa existência....somos parte...Humanidades. Ser parte, no entanto, não significa que não somos ou não devamos recuperar o todo em nós – pois a parte é também o todo; não é diferente ou estranha a ele. “Re-unirmo-nos” enquanto todo, quem sabe seja a verdadeira arte.

Negro é Cosmovisão: é  uma das chaves de leitura para interpretação do Real a partir de uma concepção da não existência de  unicidade na percepção deste. Deixa-ser as Humanidades étnicas, ouvir-lhes a palavra “deixar dizer a sua palavra” é metodologia para compreender o real nas suas múltiplas facetas, por  isso é mister que se consiga desvelar uma racionalidade a partir da Etnia. 

Abstract

A auto percepção e a percepção que o humano tem do outro, etnicamente falando, será definidora para que   entenda a si mesmo, para que entenda a outrem  e para ser entendido enquanto ser humano. Sem o suporte de conhecimento sobre a diversidade étnica, não entenderemos a pluralidade de humanidades provedoras da existência humana. Este artigo versa sobre a temática das  várias Humanidades Étnicas através de reflexão amparada na desconstrução da singularização e restrição dos  conceitos. Objetiva provocar questionamento sobre uma demanda chave, em nível de entendimento sobre etnia, qual seja: como se pode entender as humanidades que surgem por causa das etnias? O artigo é proposição de metodologia para análise desta radical reflexão.
Palavras-chave

Etnia.
Humanidades Étnicas
Conceito de Realidade
Cosmovisão
Pluralidade
Ontologia


Compartilhe
Autor: PSBRS
Imprimir PDF

Através do

estado

Contate com nossas bases em sua região e junte-se a nós para o Rio Grande continuar a crescer! Contate o PSB local!

FAÇA CONTATO >>

Saiba pela

Mídia

Veja o que a imprensa fala sobre os assuntos relacionados ao PSB do Rio Grande do Sul, sua gente e regiões. Acompanhe!

LEIA AQUI >>

Produção, desenvolvimento e manutenção: